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Não sabemos

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um Amigo que partiu


Estava andando pela praia numa tarde de domingo e vi um cachorro. Você pode está pensando que eu quero dizer que ele fez cocô na praia ou tava mordendo as pessoas, mas não é nada disso, ele se parecia muito com o meu cachorro que eu tive quando era criança. O que eu vi não era nada parecido com o meu, mas tinha uma macha idêntica a que o ligeirinho tinha, tipo um raio. Vou contar pra vocês o que aconteceu com ele.
Nessa época eu devia ter uns 7 ou 8 anos e só queria saber de jogar vídeo game, brincar com meus bonecos e ver televisão e ,quase que toda hora, pegar alguma coisa escondido pra comer. Não era a pessoa mais legal e nem queria ser. Eu era zoado constantemente pelos garotos da minha sala e isso me deixava muito nervoso e toda vez que ficava nervoso eu queria comer para poder me acalmar. Eu não gostava de sair de casa, não queria ouvir os apelidos que eles colocavam em mim e nem queria ficar vendo-os jogar bola, já que eu nunca era escolhido para o time. Foi uma fase muito difícil.

Meu aniversário estava chegando e eu queria que meu pai me desse uma fita de vídeo game nova. Mas as minhas expectativas foram superadas e no dia do meu aniversário o meu pai me deu um cachorro. Não consigo nem expressar em palavras o que eu senti na hora. Fui brincar com ele e a gente corria, pulava e eu ria quando ele vinha lamber a minha cara. Eu tinha arrumado um amigo.

Eu ia pra escola com vontade de voltar e brincar com o ligeirinho (minha mãe escolheu esse nome, até hoje não me contou o motivo) que ficava na janela me esperando. Ficamos um mês nessa excitação de nos conhecermos, porém, após certo tempo acabei me acostumando com ele e voltei a jogar meu vídeo game, mas sempre deixava ele ficar do meu lado e tudo que eu comia dava um pouco pra ele. Coisa de criança, né, achar que só ração é muito ruim e ter que variar a comida de vez em quando. E o que eu mais gostava era chocolate e sempre dividia com ele. Afinal de contas, ele era meu amigo e com amigo a gente divide as coisas.

Minha mãe sempre dizia pra eu sair de casa, ir passear com ele, mas os garotos ficavam na rua jogando bola e eu não queria ser zoado por ter um cachorro que também estava ficando gordo. Como eu me importava com o que esses garotos falavam. Desde criança a gente se importa com o que as pessoas falam.

Minhas férias chegaram, e foram as piores férias da minha vida. Minha programação das férias seria zerar um jogo de tiro e comer a maior quantidade de besteira que conseguisse, Dito e feito. Estava no meu quarto quando escuto a minha mãe me gritando dizendo para descer. Fui correndo e quando cheguei ao pé da escada vi a minha mãe abraçada ao ligeirinho e chorando. Ele tinha morrido e eu não podia fazer nada; fiquei apenas ali, sentado na escada sem conseguir deixar correr nenhuma lágrima pelo meu rosto. Não podia ser verdade.

Nunca soube do que o ligeirinho morreu. Minha mãe falava que era das besteiras que eu dava pra ele, mas eu tentava não acreditar nisso. Quando chegar em casa vou pesquisar pra ver o que não se deve dar para cachorros. Espero que esteja enganado quanto a isso; não posso carregar o sentimento de culpa por ter matado meu amigo de infância.

Odeio lembrar essas coisas. Acho que nunca contei isso pra ninguém, e nunca pensei nisso. Agora eu consigo entender o que eu estava fazendo com ele. Queria que ele fosse meu amigo, queria que ele conversasse comigo, brincasse comigo pra mostrar para toda a minha turma da escola que eu tinha um amigo e não precisava deles. Sofri pelos meus próprios atos. Queria mudar a natureza de um cão e acabei matando-o. Tem coisas que só aprendemos quando crescemos, não só em questões da idade, mas também no amadurecimento interior. Pena que eu tive que aprender do jeito mais doloroso e traumático.

Continuo andando pela praia, o cachorro que me fez lembrar o ligeirinho já sumiu faz tempo e eu fiquei com a saudade apertando meu peito. A partir de agora nunca mais me esquecerei de você, ligeirinho.


Por: Alvaro Vianna