Estava andando pela praia
numa tarde de domingo e vi um cachorro. Você pode está pensando que eu quero
dizer que ele fez cocô na praia ou tava mordendo as pessoas, mas não é nada
disso, ele se parecia muito com o meu cachorro que eu tive quando era criança.
O que eu vi não era nada parecido com o meu, mas tinha uma macha idêntica a que
o ligeirinho tinha, tipo um raio. Vou contar pra vocês o que aconteceu com ele.
Nessa época eu devia ter
uns 7 ou 8 anos e só queria saber de jogar vídeo game, brincar com meus bonecos
e ver televisão e ,quase que toda hora, pegar alguma coisa escondido pra comer.
Não era a pessoa mais legal e nem queria ser. Eu era zoado constantemente pelos
garotos da minha sala e isso me deixava muito nervoso e toda vez que ficava
nervoso eu queria comer para poder me acalmar. Eu não gostava de sair de casa,
não queria ouvir os apelidos que eles colocavam em mim e nem queria ficar vendo-os
jogar bola, já que eu nunca era escolhido para o time. Foi uma fase muito
difícil.
Meu aniversário estava
chegando e eu queria que meu pai me desse uma fita de vídeo game nova. Mas as
minhas expectativas foram superadas e no dia do meu aniversário o meu pai me
deu um cachorro. Não consigo nem expressar em palavras o que eu senti na hora.
Fui brincar com ele e a gente corria, pulava e eu ria quando ele vinha lamber a
minha cara. Eu tinha arrumado um amigo.
Eu ia pra escola com vontade
de voltar e brincar com o ligeirinho (minha mãe escolheu esse nome, até hoje não me contou o motivo) que ficava na janela me esperando. Ficamos um mês nessa excitação de
nos conhecermos, porém, após certo tempo acabei me acostumando com ele e voltei
a jogar meu vídeo game, mas sempre deixava ele ficar do meu lado e tudo que eu
comia dava um pouco pra ele. Coisa de criança, né, achar que só ração é muito
ruim e ter que variar a comida de vez em quando. E o que eu mais gostava era
chocolate e sempre dividia com ele. Afinal de contas, ele era meu amigo e com
amigo a gente divide as coisas.
Minha mãe sempre dizia
pra eu sair de casa, ir passear com ele, mas os garotos ficavam na rua jogando
bola e eu não queria ser zoado por ter um cachorro que também estava ficando
gordo. Como eu me importava com o que esses garotos falavam. Desde criança a
gente se importa com o que as pessoas falam.
Minhas férias chegaram, e
foram as piores férias da minha vida. Minha programação das férias seria zerar
um jogo de tiro e comer a maior quantidade de besteira que conseguisse, Dito e
feito. Estava no meu quarto quando escuto a minha mãe me gritando dizendo para
descer. Fui correndo e quando cheguei ao pé da escada vi a minha mãe abraçada ao
ligeirinho e chorando. Ele tinha morrido e eu não podia fazer nada; fiquei apenas
ali, sentado na escada sem conseguir deixar correr nenhuma lágrima pelo meu
rosto. Não podia ser verdade.
Nunca soube do que o
ligeirinho morreu. Minha mãe falava que era das besteiras que eu dava pra ele, mas
eu tentava não acreditar nisso. Quando chegar em casa vou pesquisar pra ver o
que não se deve dar para cachorros. Espero que esteja enganado quanto a isso;
não posso carregar o sentimento de culpa por ter matado meu amigo de infância.
Odeio lembrar essas
coisas. Acho que nunca contei isso pra ninguém, e nunca pensei nisso. Agora eu
consigo entender o que eu estava fazendo com ele. Queria que ele fosse meu
amigo, queria que ele conversasse comigo, brincasse comigo pra mostrar para
toda a minha turma da escola que eu tinha um amigo e não precisava deles. Sofri
pelos meus próprios atos. Queria mudar a natureza de um cão e acabei matando-o.
Tem coisas que só aprendemos quando crescemos, não só em questões da idade, mas
também no amadurecimento interior. Pena que eu tive que aprender do jeito mais
doloroso e traumático.
Continuo andando pela
praia, o cachorro que me fez lembrar o ligeirinho já sumiu faz tempo e eu
fiquei com a saudade apertando meu peito. A partir de agora nunca mais me
esquecerei de você, ligeirinho.
Por: Alvaro Vianna
Por: Alvaro Vianna