
Minha relação com esse autor começou a muito
tempo atrás. Eu estudava na 6ª série e como eu e meus amigos éramos muito tímido
a gente não ia para a quadra jogar bola e nem pro pátio pra ficar conversando,
a gente ia para a biblioteca e ficava lendo e conversando sobre jogos.
A minha escola começou a ser reformada e a
biblioteca iria ser ampliada e como eu e meus amigos passávamos a maior parte
do tempo na biblioteca a responsável pela biblioteca pediu pra gente ajudar a
classificar e organizar os livros nas prateleiras e nós aceitamos, e íamos todos
os dias fora do horário de aula e durante os recreios classificar e organizar,
e foi com esse trabalho que durou umas 2 ou 3 semanas que eu conheci muitos
autores de livro e foi numa dessas que eu conheci os livros de Luis Fernando
Verissimo, todos coloridos com uma caricatura dele na capa e com nomes bem
sugestivos, como: comédias para se ler na escola, as mentiras que os homens
contam, a mesa voadora, sexo na cabeça etc.
E para um garoto com fome de livros esses títulos
eram bastante sugestivos, e foi nesse ano que eu li mais livros, se não me
engano foi por volta de uns 63, mas depois começou a complicar as coisas e o
rendimento caiu, mas ate o final do ensino fundamental eu sempre passava na
biblioteca e lia alguns livros.
Relendo um dos livros desse brilhante autor
tem um texto que explica um pouco o defeito ou qualidade que eu mais
batalho pra vencer desde sempre.
Da Timidez
Ser um tímido notório é uma
contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se
ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar.
Afinal, que retumbante timidez é essa,
que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez
estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema
para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo
psicanalítico:
só alguém que se acha muito superior
procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha
que se sentir inferior é doença.
Todo mundo é tímido, os que parecem
mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais
tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para
sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido
a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro
alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese,
dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de
cada tímido existe um exibido gritando "Não me olhem! Não me olhem!",
só para chamar a atenção.
O tímido nunca tem a menor dúvida de
que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua
timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele.Se riem, é dele. Mentalmente, o
tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez
estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio
destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.
O tímido vive acossado pela catástrofe
possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que
não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem
certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira
o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.
O tímido tenta se convencer de que só
tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas
pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma
platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os
por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos.
Quatro vias, portanto, para receber
suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho
e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O
tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu
vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.
Luis Fernando Verissimo
uma mini biografia de Luis Fernando Verissimo.
Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre, 26
de setembro de 1936) é um escritor brasileiro. Mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, mais precisamente de sátiras de costumes, publicados
diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também cartunista e tradutor, além de roteirista de
televisão, autor de teatro e romancista bissexto. com mais de 60 títulos publicados. É
também filho do escritor Érico Verissimo.