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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Segundas intenções com Luis Fernando Verissimo #1



Minha relação com esse autor começou a muito tempo atrás. Eu estudava na 6ª série e como eu e meus amigos éramos muito tímido a gente não ia para a quadra jogar bola e nem pro pátio pra ficar conversando, a gente ia para a biblioteca e ficava lendo e conversando sobre jogos.

A minha escola começou a ser reformada e a biblioteca iria ser ampliada e como eu e meus amigos passávamos a maior parte do tempo na biblioteca a responsável pela biblioteca pediu pra gente ajudar a classificar e organizar os livros nas prateleiras e nós aceitamos, e íamos todos os dias fora do horário de aula e durante os recreios classificar e organizar, e foi com esse trabalho que durou umas 2 ou 3 semanas que eu conheci muitos autores de livro e foi numa dessas que eu conheci os livros de Luis Fernando Verissimo, todos coloridos com uma caricatura dele na capa e com nomes bem sugestivos, como: comédias para se ler na escola, as mentiras que os homens contam, a mesa voadora, sexo na cabeça etc.





E para um garoto com fome de livros esses títulos eram bastante sugestivos, e foi nesse ano que eu li mais livros, se não me engano foi por volta de uns 63, mas depois começou a complicar as coisas e o rendimento caiu, mas ate o final do ensino fundamental eu sempre passava na biblioteca e lia alguns livros.

Relendo um dos livros desse brilhante autor tem um texto que explica um pouco o defeito ou qualidade que eu mais batalho pra vencer desde sempre.


Da Timidez
Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar.

Afinal, que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico:

só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.

Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando "Não me olhem! Não me olhem!", só para chamar a atenção.

O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele.Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.

O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.

O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos.

Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.

Luis Fernando Verissimo

uma mini biografia de Luis Fernando Verissimo.
Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre26 de setembro de 1936) é um escritor brasileiro. Mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, mais precisamente de sátiras de costumes, publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto. com mais de 60 títulos publicados. É também filho do escritor Érico Verissimo.